12/12/2016

O penico

Já fui artigo de luxo, já residi embaixo de camas com colchas de cetim, travesseiros de pluma de ganso, já fui trono de bumbum real, uns bonitos, outros feios, uns com apêndice, outros não.

Nunca reclamei do que era em mim depositado, pois foi pra isso que eu nasci, também nunca questionei se me dessem banho ou não, não fazia diferença.

Normalmente eu era branco esmaltado, talvez pra destacar meu conteúdo, ou simplesmente porque essa cor é a que ficava melhor em mim.

Vi o tempo passar, vi revoluções, guerras, pestes e quase nunca me mudavam, nem meu formato ou minha serventia. Muito raramente me transformavam em vaso. Já fui moradia de cravos, violetas, até girassol já se atreveu a morar em mim.

Na maioria das vezes, só a ferrugem era minha companheira, ela me acompanhava pelo resto da minha existência.

Tantas vezes fui jogado de janelas, junto com o que estava dentro de mim, algumas vezes de propósito, outras sem querer, nós três éramos atirados nas ruas de algumas cidades imundas de antigamente, e ali meus companheiros de tombo ficavam produzindo fedentina, até que a chuva nos levasse embora e nos despejassem em rios mais fedidos ainda.

Com a modernidade dos tempos e o progresso do mundo eu fui ficando obsoleto e esquecido, fui trocado por lindas obras de arte, feitas com mármores riquíssimos, porcelanas importadas, até mesmo por simples louça, ou então aquele velho buraco no chão.

Confesso que tenho saudade de quando eu era procurado, quando, no meio da noite, eu era acordado pra cumprir com minha função, fosse meu dono pobre, rico, doente ou aleijado, o produto era sempre o mesmo, uns mais fétidos, outros menos.

Já me fizeram de plástico, pra que eu me tornasse mais acessível à classe menos privilegiada, mas não tinha o mesmo romantismo do meu eu de outrora. Com certeza, já fui de ouro, de prata ou de outro metal nobre.

Hoje, não sou nada menos que peça de museu, moro em estantes fechadas, com plaquinhas grudadas em mim com dizeres: Pertenceu a fulano de tal, duque de não sei de onde, marquês de qualquer coisa, e outros personagens mais.

Ao meu lado, muitos outros eus, todos com uma pequena diferença, mas com a mesma finalidade. Fui e sou feliz, apesar de tudo e nunca irei dizer que essa vida é uma merda.

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