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 Ponta Grossa - Paraná /
 
Saudades de
Judith Carneiro de Mello
Fabiana Guedes

Faleceu, nesta segunda-feira, na Cidade de Castro, Dona Judith Carneiro de Mello, Diretora do Museu do Tropeiro e da Casa de Sinhara. As despedidas acontecem na Capela Ávila, e, nesta terça-feira, a ilustre cidadã será homenageada na Câmara Municipal daquele Município. (Sepultamento previsto para às 10 horas do dia 13, no Cemitério Frei Mathias). Judith tinha 84 anos e deixa vários livros publicados, sempre prestigiando a cultura e arte locais. Recentemente, participou da série de reportagens da Rede Globo sobre a Rota dos Tropeiros.
 


JUDITH CARNEIRO DE MELLO, nascida em Castro, no dia 11 de abril de 1923, é filha de famílias genuinamente castrenses. Seu pai, Vespasiano Carneiro de Mello, era empresário e político na região dos Campos Gerais. Sua mãe, Maria da Conceição Bueno Barbosa Carneiro de Mello era membro de uma das mais antigas e conhecidas famílias de Castro.

Durante a infância e adolescência estudou nos Colégios São José e Diocesano Santa Cruz desta cidade, seguindo depois para Curitiba onde formou-se Normalista em 1942. No retorno à Castro, assumiu funções de professora no Grupo Escolar Dr. Vicente Machado até 1949.

A partir desta data passou a freqüentar o Curso Intensivo de “Educação Física” – Magistério Primário”, em Curitiba. Já Licenciada em Educação Física atuou em Piraí do Sul e Rolândia.

Após prestar “Exames de Suficiência” para a cadeira de Desenho, retornou a Castro lecionando nesta disciplina e Educação Física no Ginásio Estadual de Castro, do qual foi também a 1ª Diretora. Atualmente este Colégio leva o nome de seu pai, ou seja, Colégio Estadual “Major Vespasiano Carneiro de Mello” – Ensino Fundamental e Médio.

Lecionou ainda, aos jovens castrenses, as disciplinas de Música e Educação Moral e Cívica.

Em 1973 recebeu do Governo do Estado do Paraná o “Diploma por Relevantes Serviços Prestados à Melhoria da Educação”.

Aposentou-se da função de professora em 1983, após trinta anos dedicados à educação dos jovens castrenses. Já estava, no entanto, há alguns anos envolvida em outro trabalho, que marcaria para sempre seu nome em Castro: o estabelecimento de um Museu Castrense, que registrasse para o futuro as nossas origens.

Apegada aos valores essenciais do passado, Judith propôs-se ainda na década de 1970 a realizar seu intento. Encontrou irrestrito apoio no então Prefeito Lauro Lopes, que com entusiasmo admirável materializou a iniciativa na forma de Lei Municipal e deu todas as condições para a sua execução. Após muito discutir o assunto com proeminente intelectual paranaense e seu amigo pessoal, Dr. Newton Carneiro, Judith estabeleceu as linhas substanciais: a saga desbravadora destas nossas paragens seria perpetuada no Museu do Tropeiro, realização inédita no Brasil.

O Município adquiriu secular moradia, restaurada sob a orientação de arquiteto do Departamento Histórico e Artístico do Governo do Paraná, ao mesmo tempo, que Judith percorria todo o interior do Município, visitando as mais abastadas fazendas e os mais humildes sítios, em busca das peças que formariam o valioso acervo do Museu do Tropeiro. Nas jornadas que começavam de madrugada e se estendiam até a noite a professora Judith esclarecia às pessoas do que significaria o gesto de doação de uma peça para a memória do Tropeirismo e de Castro.

Seu mérito pela organização de tão significativo Museu foi reconhecido pelo Governo do Estado do Paraná, que em 1988 lhe conferiu mais uma condecoração: o 1º Premio Ermelino de Leão.

Durante os vinte e oito anos de existência do Museu do Tropeiro, sempre esteve zelando pelo seu bom funcionamento e representatividade no cenário cultural nacional, mesmo quando afastada da Direção. Os seus serviços sempre foram fruto do seu idealismo, pois só recebeu remuneração financeira paga pela Prefeitura Municipal a partir de 2001.

Seu amor à Castro, entretanto, nunca esmoreceu diante das adversidades: levou exposições temporárias da cidade à Capital Curitiba e divulgou o nosso Artesanato em dezenas de Feiras por todo o Brasil.

Há alguns anos propôs-se novo Projeto: divulgar as belezas históricas e naturais de Castro. O resultado foi uma série de 4 álbuns idealizados por ela e executados com auxílio de um pequeno grupo de colaboradores. O patrocínio é dado por empresas e pessoas reconhecedoras do seu esforço.

Nas comemorações dos 300 anos de Fundação de Castro, idealizou e realizou uma série de eventos alusivos à data, entre eles o Espetáculo de Luz e Som na Fazenda Capão Alto e o Seminário de Tropeirismo, que contou com a presença das maiores autoridades intelectuais no assunto.

Organizou também a Casa de Sinhara, em homenagem às mulheres castrenses do passado. A exposição alcançou grande repercussão, tendo sida veiculada em rede nacional pela Rede Globo e visitada por milhares de pessoas(1).

No entanto, Judith Carneiro de Mello não é mulher ligada apenas aos valores culturais. Também a solidariedade verdadeira e sigilosa está presente na sua vida. Durante as viagens ao interior do Município em busca de acervo para o Museu do Tropeiro, conheceu uma realidade que bem poucos sabem existir: idosos, crianças e doentes nos lugares mais longínquos e inacessíveis, onde as campanhas de assistência não costumam alcançar. Desde então e há mais de vinte anos, de maneira discreta e sem alarde, todos os anos arrecada alimentos, roupas e brinquedos e os leva até os mais de três mil cadastrados. Faz questão de atender os necessitados sem vincular a ajuda a partidos políticos ou entidades religiosas.

Desde 2003 está envolvida no resgate do artesanato típico de Castro. Elaborou projeto que visa manter o artesão no seu núcleo rural e ensinar o ofício às novas gerações. Em junho de 2005 conseguiu incluir este artesanato típico de Castro, composto de mulas de madeira, cestos, peneiras, etc., na exposição que o Brasil fará durante o ano em Paris, na França. É notável este fato, já que foram poucas amostras de artesanato selecionadas em todo o país.

Reservada, Judith não dá entrevistas, não permite ser fotografada e não faz alarde do seu grande trabalho. Mas basta um olhar para a história da sua vida e é possível saber do seu imperioso amor por Castro e pelos castrenses.

(Texto extraído da Justificativa ao Projeto de Lei n° 65/05 de iniciativa do então Vereador castrense Henrique Aurélio Salgado, concedendo a Dª Judith o título de Cidadã Benemérita. Recentemente, Dª Jutdith quebrou a tradição de não conceder entrevistas e participou da série de reportagens sobre a Rota dos Tropeiros, realizada pela Rede Globo. Em nossa última conversa, havia sinalizado a possibilidade de ser fotografada por minhas lentes, no Projeto “Beleza depois dos 80”, que pretende reunir oitenta mulheres acima dos 80 anos que ainda detenham atividades próprias e continuam contribuindo para o meio onde vivem. Não houve tempo para que pudéssemos aprimorar a idéia. Castro perde uma de suas mais ardorosas cidadãs e amigas. Essa perda inestimável é lamentada não tão-somente por todos os castrenses, mas também por todos aqueles batalhadores pela preservação do patrimônio artístico-cultural de nosso país.
Fabiana Guedes, em Castro, 12 de fevereiro de 2.007
)

Tendo em vista sua grande relevância, a Casa de Sinhara, que surgiu como exposição temporária, permanece também como museu na cidade de Castro, na Praça Nossa Senhora Sant’Anna, apresentando belo acervo ligado às mulheres dos tropeiros e das famílias de origem. Dª Judith estava permanentemente à procura de novas peças e fotografias para seu acervo.

 

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