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Ponta Grossa, quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Conto de Natal

 


Rita Vaz

 

O dia estava lindo. Ensolarado. Com céu azul.
Diferente do estado de espírito de Branca, que sentia-se triste e completamente oposta à realidade daquele dia.

Preferia do fundo de seu íntimo, que estivesse chovendo, que o dia estivesse cinza, e que aquele cheiro tão agradável de dezembro não pairasse no ar.

Para ela, o mês de dezembro tinha um aroma específico.
Do nada vinha aquele cheiro e ela dizia muitas vezes, para si mesma, ou para quem estivesse por perto: “Hum! Que cheiro de Natal”.

O Natal estava próximo, todos sentiam a presença dele no ar.

Mas, para Branca, essa verdade só aumentava sua tristeza.

Estava assim, porque o ano que estava terminando não tinha sido fácil.
Tantas necessidades! Físicas, emocionais.

Ela não estava trabalhando há um mês. Parou porque seu filho nasceu, já tinha vinte dias de vida e ela já não conseguia acompanhar o marido e os outros três filhos pequenos nas andanças pela cidade, juntando papel. Voltaria em breve.

Seu marido era carrinheiro, ela também. E os filhos os acompanhavam, não tinham com quem ficar.

Branca tinha quatro filhos. O recém-nascido, o de dois anos, o de quatro anos, e a de oito anos.

Ela amava muito seus filhos, mas às vezes se perguntava se os tinha colocado no mundo só para sofrer, e no mesmo instante pedia perdão a Deus. E sentia uma angústia muito grande com isso.

Mas, Branca também tinha fé. Ela sabia que tudo daria certo. Deus a guardava, assim como à sua família.

Próximo como estavam do Natal, ela sentia que faltava muita coisa para sua família. Parece que essa proximidade aumentava a falta dessas coisas. Comida, roupas, objetos simples, mas necessários, como uma escova de dentes por exemplo.

À noite, quando seu marido chegou em casa, ela foi ajudá-lo a separar o que tinha vindo no carrinho. E lá pelas tantas, pegando uma sacola de plástico bem amarrada e cheia, decidiu abri-la. Não era seu costume abrir sacolas assim, mas aquela parecia que se destacava das outras.

Abriu a sacola e logo percebeu que quem tinha jogado aquele lixo não tinha se preocupado em rasgar nenhum papel.

Logo encontrou um envelope, ainda fechado e endereçado para a Sra. Branca Sá de Oliveira. Achou a coincidência do nome um aviso. Não teve dúvida! Guardou o envelope e, no dia em que voltasse a trabalhar com seu marido para catar papel, ela deixaria o envelope na casa do endereço da carta. Ainda mais sendo a destinatária sua xará.

Na semana seguinte, na véspera de Natal, ela decidiu ir trabalhar com o marido e os filhos. Pelo menos ficariam todos juntos o dia inteiro.

Fizeram o caminho de sempre. Já tinham lugares certos por onde passar. A casa onde deixariam o envelope ficava duas quadras fora do seu caminho habitual. Branca perguntou ao marido por que ele tinha ido até aquela rua, e ele respondeu que tinha sido Bruna, a filha de oito anos, que tinha insistido na semana anterior para que eles fossem até lá. E tinha sido bom, encontraram bastante coisa para reciclar.

Quando Branca chegou na frente da casa da carta, viu que tinha uma caixa de correio e foi depositar o envelope lá.
Estava com seu filho recém-nascido no colo.

De repente chegou um carro grande e preto e subiu na calçada para entrar na garagem.

O portão abriu, mas o carro não entrou. Alguém abriu o vidro de trás do carro. E uma senhora muito elegante dirigiu-se à Branca:
“Como vai a senhora? Deseja alguma coisa?”

E Branca respondeu: “Não. Só vim devolver um envelope que achamos no lixo e que ainda está fechado”.

Nesse momento a senhora falou alguma coisa para o motorista, ele desceu e abriu a porta para ela. A senhora saiu do carro, expandindo sua presença forte e luminosa.

Dirigiu-se à Branca e perguntou:
“Por que você fez isso? Por que se dar ao trabalho de voltar aqui para devolver um envelope, sem nenhum motivo?”

E Branca lhe disse que tinha encontrado o envelope na hora da separação do lixo, e viu que a carta era para alguém que tinha o mesmo nome dela. Isso tinha aumentado a vontade de devolver a carta, mas ela devolveria mesmo se fosse outro nome. E nesse momento estendeu a mão com o envelope para a senhora.

A senhora abriu um largo sorriso e disse:
“Querida, você é um anjo. Eu sou a Branca da carta, eu sou a sua xará. Não sei o que tem nesse envelope, não sei se é importante ou não. Mas o que realmente importa é a sua atitude. Conheço muita gente que não se daria ao trabalho nem se fosse para ajudar alguém da sua família. Vamos entrar, temos muito que conversar”.

E foi assim, sem planejar nada, sem esperar nada, que Branca e sua família receberam um milagre de Natal. A partir daquele dia, eles não mais juntaram papel na rua, eles não mais passaram necessidades. Daquele dia em diante eles começaram uma vida nova, trabalhando e morando na casa de dona Branca.

A partir desse Natal, todos os dias dos anos que vieram foram bons, e pareciam Natal.

E aquele aroma que Branca sentia em dezembro, passou a sentir em todos os meses do ano. Parecia que mesmo nos dias de chuva, dentro dela os dias eram ensolarados. Já não tinha medo. Tinha cada vez mais fé e esperança.
Sabendo sempre que podia e continuaria confiando em Deus.


Rita de Cássia Vaz Machado é natural de Curitiba, graduada em Administração de Empresas pela Fundação de Estudos Sociais do Paraná, é casada e mãe. Desde pequena acostumou-se a ler,
sendo essa uma de suas paixões além, é claro, do seu amor pela escrita.
É uma das autoras do livro "50 Contos por 14 Autores".
Cursou a Oficina do Livro.
Contato:
ricavm@uol.com.br


 





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