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Rita Vaz |
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O
dia estava lindo. Ensolarado. Com céu azul.
Diferente do estado de espírito de Branca, que
sentia-se triste e completamente oposta à realidade
daquele dia.
Preferia
do fundo de seu íntimo, que estivesse chovendo, que o dia
estivesse cinza, e que aquele cheiro tão agradável de dezembro
não pairasse no ar.
Para ela,
o mês de dezembro tinha um aroma específico.
Do nada vinha aquele cheiro e ela dizia muitas vezes, para si
mesma, ou para quem estivesse por perto: “Hum! Que cheiro de
Natal”.
O Natal
estava próximo, todos sentiam a presença dele no ar.
Mas, para
Branca, essa verdade só aumentava sua tristeza.
Estava
assim, porque o ano que estava terminando não tinha sido
fácil.
Tantas necessidades! Físicas, emocionais.
Ela não
estava trabalhando há um mês. Parou porque seu filho nasceu,
já tinha vinte dias de vida e ela já não conseguia acompanhar
o marido e os outros três filhos pequenos nas andanças pela
cidade, juntando papel. Voltaria em breve.
Seu
marido era carrinheiro, ela também. E os filhos os
acompanhavam, não tinham com quem ficar.
Branca
tinha quatro filhos. O recém-nascido, o de dois anos, o de
quatro anos, e a de oito anos.
Ela amava
muito seus filhos, mas às vezes se perguntava se os tinha
colocado no mundo só para sofrer, e no mesmo instante pedia
perdão a Deus. E sentia uma angústia muito grande com isso.
Mas,
Branca também tinha fé. Ela sabia que tudo daria certo. Deus a
guardava, assim como à sua família.
Próximo
como estavam do Natal, ela sentia que faltava muita coisa para
sua família. Parece que essa proximidade aumentava a falta
dessas coisas. Comida, roupas, objetos simples, mas
necessários, como uma escova de dentes por exemplo.
À noite,
quando seu marido chegou em casa, ela foi ajudá-lo a separar o
que tinha vindo no carrinho. E lá pelas tantas, pegando uma
sacola de plástico bem amarrada e cheia, decidiu abri-la. Não
era seu costume abrir sacolas assim, mas aquela parecia que se
destacava das outras.
Abriu a
sacola e logo percebeu que quem tinha jogado aquele lixo não
tinha se preocupado em rasgar nenhum papel.
Logo
encontrou um envelope, ainda fechado e endereçado para a Sra.
Branca Sá de Oliveira. Achou a coincidência do nome um aviso.
Não teve dúvida! Guardou o envelope e, no dia em que voltasse
a trabalhar com seu marido para catar papel, ela deixaria o
envelope na casa do endereço da carta. Ainda mais sendo a
destinatária sua xará.
Na semana
seguinte, na véspera de Natal, ela decidiu ir trabalhar com o
marido e os filhos. Pelo menos ficariam todos juntos o dia
inteiro.
Fizeram o
caminho de sempre. Já tinham lugares certos por onde passar. A
casa onde deixariam o envelope ficava duas quadras fora do seu
caminho habitual. Branca perguntou ao marido por que ele tinha
ido até aquela rua, e ele respondeu que tinha sido Bruna, a
filha de oito anos, que tinha insistido na semana anterior
para que eles fossem até lá. E tinha sido bom, encontraram
bastante coisa para reciclar.
Quando
Branca chegou na frente da casa da carta, viu que tinha uma
caixa de correio e foi depositar o envelope lá.
Estava com seu filho recém-nascido no colo.
De
repente chegou um carro grande e preto e subiu na calçada para
entrar na garagem.
O portão
abriu, mas o carro não entrou. Alguém abriu o vidro de trás do
carro. E uma senhora muito elegante dirigiu-se à Branca:
“Como vai a senhora? Deseja alguma coisa?”
E Branca
respondeu: “Não. Só vim devolver um envelope que achamos no
lixo e que ainda está fechado”.
Nesse
momento a senhora falou alguma coisa para o motorista, ele
desceu e abriu a porta para ela. A senhora saiu do carro,
expandindo sua presença forte e luminosa.
Dirigiu-se à Branca e perguntou:
“Por que você fez isso? Por que se dar ao trabalho de voltar
aqui para devolver um envelope, sem nenhum motivo?”
E Branca
lhe disse que tinha encontrado o envelope na hora da separação
do lixo, e viu que a carta era para alguém que tinha o mesmo
nome dela. Isso tinha aumentado a vontade de devolver a carta,
mas ela devolveria mesmo se fosse outro nome. E nesse momento
estendeu a mão com o envelope para a senhora.
A senhora
abriu um largo sorriso e disse:
“Querida, você é um anjo. Eu sou a Branca da carta, eu sou a
sua xará. Não sei o que tem nesse envelope, não sei se é
importante ou não. Mas o que realmente importa é a sua
atitude. Conheço muita gente que não se daria ao trabalho nem
se fosse para ajudar alguém da sua família. Vamos entrar,
temos muito que conversar”.
E foi
assim, sem planejar nada, sem esperar nada, que Branca e sua
família receberam um milagre de Natal. A partir daquele dia,
eles não mais juntaram papel na rua, eles não mais passaram
necessidades. Daquele dia em diante eles começaram uma vida
nova, trabalhando e morando na casa de dona Branca.
A partir
desse Natal, todos os dias dos anos que vieram foram bons, e
pareciam Natal.
E aquele
aroma que Branca sentia em dezembro, passou a sentir em todos
os meses do ano. Parecia que mesmo nos dias de chuva, dentro
dela os dias eram ensolarados. Já não tinha medo. Tinha cada
vez mais fé e esperança.
Sabendo sempre que podia e continuaria confiando em Deus.
Rita de
Cássia Vaz Machado é natural de
Curitiba, graduada em Administração de Empresas pela
Fundação de Estudos Sociais do Paraná, é casada e mãe.
Desde pequena acostumou-se a ler,
sendo essa uma de suas paixões além, é claro, do seu
amor pela escrita.
É uma das autoras do
livro "50 Contos por 14 Autores".
Cursou a Oficina do Livro.
Contato:
ricavm@uol.com.br
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