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 Ponta Grossa - Terça-feira, 29 de maio de 2007
 

Eu “morro” por dez centavos!
Seu Pedro (*)                         Contato: seupedro@micks.com.br

E foi bem na hora em aquele pesado caminhão deu ruidosa freada, para não me atropelar, que eu havia abaixado para juntar um dinheiro perdido, por não sei quem. O valor não era alto, somente dez centavos, mas, o exato que me faltava para comprar quatro pães, posto que cada um pão é vendido a vinte centavos e setenta centavos eu o tinha. Minha família é composta de quatro pessoas: Minha esposa que come um pão, a filha de dez anos, que come outro todinho, a menorzinha que come meio e eu que devoro um e meio.

Fui xingado de “velho gay” pelo simpático motorista do caminhão, um homem de dois metros de altura e um de largura, daqueles que nenhum cidadão normal ousa de chamá-lo de antipático cara a cara. Dei-lhe uma trégua e primeiro reclamei que não mais me chamasse de velho, sinto-me ofendido de assim ser tratado. Quando o clima estava mais sereno apontei-lhe a placa que indicava que ele estava trafegando na contramão. Seria um grande azar para ele me atropelar, e mais azar ainda para mim que não provaria do pão do fresco padeiro.

Sempre ensino as minhas filhas a serem educadas. Quando elas vão à padaria perguntam gentilmente ao padeiro: “O pão está com a casca morena clara como eu, e fresco como o senhor?”.

Dinheiro é dinheiro, cada moedinha vale alguma coisa. Por isto choro pelo meu país cujo povo é enganado pela propaganda, e, então, com cara de felicidade, deixa seu troco na loja de um e noventa.  E ainda acredita que a mercadoria é importada! O que vem do Paraguai não é importado, nem contrabandeado e nem pirateado.

Primeiro que o Paraguai já é quintal do Brasil...  Segundo, o fruto do contrabando tem o mesmo argumento: Não se faz contrabando do quintal para dentro de casa. Terceiro, também não é pirateado já que ninguém fabrica nada tão ruim e descartável como eles. Pirateado tem a mesma qualidade, só que sem recolher os impostos.

Perdão! A China também, um país que só faz treco, e nem se dá ao luxo de mandar para o Paraguai para que suas quinquilharias cheguem às lojas de ofertas. A pergunta é: Se a “merdadoria” (erro proposital) é anunciada a R$ 1,90, por que arredondamos para R$ 2,00? Ou gostamos de propaganda enganosa, ou somos um país de ricos!

Dez Centavos é a décima parte de Um Real, não é para ser desperdiçado. E vejo na televisão a história do menino que cata pedaços de fios de cobre e outros metais, vasculhando as portas de prédios em construção, embaixo de postes onde os eletricistas das concessionárias cortam pontas de emendas, e em eventuais olhadas pelo chão do seu circuito. A repórter o indagou o valor da venda e a aplicação do valor auferido: “Compro um litro de leite da minha irmã”, disse sorridente.

A resposta daquele menino fez cair por terra os argumentos de tantos que passaram por cima daquela moeda, antes de mim, e a olharam com desprezo. Para si mesmo indagaram: “Abaixar por tão pouco?”. Há um ditado que diz: “Quem despreza o fubá não faz jus ao milhão”. (se o ditado não existia, passou a existir agora). Não é à-toa que americano fica rico. Eu vi em Nova York um passageiro de táxi bronquear pelo troco de “ten cents” (dez centavos!). Eu vi em um filme, mas vi!

 (*) Seu Pedro é o jornalista Pedro Diedrichs, de Guanambi – Bahia, e tem observado que muitos, às vezes paupérrimos, desprezam moedinhas caídas ao chão. Assim como não exigem trocos, outras vezes aceitam passivamente as balinhas. Coisa de povo rico!

 

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